A Cidade e os Sonhos

A cidade também tem mar.

Uns pés morenos e esbeltos – helénicos – rematam as longas pernas do corpo de casas estendido à beira rio.

Na maré cheia, esperançosa, levanta-se e vai experimentar a água, mas logo se arrepia e foge das ondas, a correr e a rir muito. Depois estende-se novamente ao sol, a dormitar, sonhando uma maré morna para a manhã seguinte.

Enquanto isso, as penas das gaivotas dançam com o vento, rodopiando sobre a pele nua da cidade.

Empurradas para o leito do rio, são arrastadas pela corrente, submergindo e voltando à tona, precipitando-se para o mar de purpurina à sua frente.

Ofuscadas por brilhos infinitos, desaparecem e reaparecem no olhar semidesperto da cidade.

Cada pena é um barco frágil, transportando o sonho de um dos seus habitantes, ainda todos por realizar.

Expectantes, seguem o seu caminho sinuoso e tremeluzente, em direcção à  imprevisível vastidão do mar.